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Museu Infinito. Joaquim Vasconcelos e o Museu Industrial e Comercial do Porto (1883-1899)

15 Jan. 2016 > 17 Abr. 2016

Programação e Coordenação Geral
Bárbara Coutinho

Conceito e Curadoria
 
Sandra Leandro

Design Expositivo
Miguel Vieira Baptista

Piso 1

Design Gráfico
  
Diogo Potes


A exposição Museu Infinito dá a conhecer ao grande público o Museu Industrial e Comercial do Porto (MICP) constituído por decreto em 1883, graças à ação de António Augusto Aguiar, mas sobretudo ao empenho do historiador e crítico de arte Joaquim de Vasconcelos (1849-1936). O MICP, tal como o Museu Industrial de Lisboa e as escolas industriais e de desenho industrial com as quais se articulavam, desenvolveram-se no contexto da política de fomento industrial do Governo de Fontes Pereira de Melo, por iniciativa do Ministro António Augusto de Aguiar. O MICP foi, assim, um dos primeiros museus nacionais dedicados às artes industriais ou artes aplicadas, na esteira dos primeiros Museus de Artes Aplicadas à Indústria e dos Museus de Artes Decorativas constituídos no seguimento da Revolução Industrial, um pouco por toda a Europa, e que são hoje referências incontornáveis no panorama museológico mundial. Relembremos apenas três exemplos: Em 1852, é criado, no seguimento da Primeira Exposição Universal, o Museum of Manufactures, mais tarde South Kensington Museum - atualmente, Victoria & Albert Museum – com o objetivo de dar a conhecer a sua coleção de artes aplicadas e assim contribuir para a melhoria da produção industrial. Em 1864, é a vez do MAK – Österreichisches Museum für andewandte Kunst / Gegenwartskunst, enquanto museu austríaco imperial das artes e da indústria. Do lado de lá do Atlântico, o Metropolitan Museum of Art (Nova Iorque) é fundado em 1870 com a finalidade de incentivar o estudo das Belas Artes e incrementar a aplicação das Artes à Indústria. Estes museus, em articulação com as escolas de arte e os múltiplos movimentos de arquitetos, artistas e artesãos que foram procurando conciliar arte/indústria e cultura/produção (tal como a Wiener Werkstätte, comunidade vienense cuja ação decorre entre 1903 e 1932, ou a Deutscher Werkbund, associação fundada em 1907 com o objetivo de incentivar a ação conjunta de artistas, artesãos qualificados e indústria), tiveram um papel fulcral para a afirmação do design e da produção nos seus respetivos países, para o desenvolvimento do ensino artístico e para a formação do gosto e da sensibilidade do público. 
Ao contrário, os Museus Industriais e Comerciais em Portugal tiveram uma curta e atribulada vida, acabando por serem extintos em 1899. Mesmo assim, o MICP, inaugurado em 1886, manterá as suas coleções até 1927. Este facto, e a inexistência em Portugal durante todo o século XX, de um museu especificamente dedicada ao design teve sérias consequências para a nossa cultura e desenvolvimento, que procuramos expor e debater nesta mostra, no programa de conferências a ela associado (a anunciar) e na respetiva publicação.  
Com esta exposição, prosseguimos o trabalho de investigação, conservação, divulgação e musealização do design português, uma das prioridades estratégicas do MUDE desde a sua inauguração em 2009. Fazemo-lo dando a conhecer este episódio da cultura nacional que, muito embora estudado em termos académicos, carecia de uma mostra como esta.  Evocando a taxonomia criada pelo próprio Joaquim de Vasconcelos, as peças em exposição remetem para o retrato fabril e empresarial de Portugal do século XIX, sendo de registar a presença de vários setores de produção tradicionais, como o vidro, a cerâmica e o têxtil, bem como a presença de algumas fábricas, ainda hoje em atividade.
Prestamos também uma justa homenagem a Joaquim de Vasconcelos, sublinhando a atualidade da sua visão e entendimento. Em especial, o modo como perspetivava a função pedagógica e formativa do museu, considerando-o uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do gosto do público, dos empresários, dos artistas e dos artesãos; a sua defesa e valorização das artes e dos ofícios populares, entendendo-as como fonte de inspiração e aprendizagem; e a vontade de fazer do museu uma montra para a promoção dos melhores produtos nacionais, estimulando a produção e consumo nacionais. A experiência do MICP tem subjacente a consciência de Joaquim de Vasconcelos da necessidade de modernizar os setores tradicionais de produção, trabalhar o potencial criativo dos recursos humanos existentes em Portugal, promovendo a sua indispensável requalificação e continua formação, e de contribuir para a efetiva industrialização do país. Num momento em que recrudesce a valorização da identidade e cultura nacionais, ao mesmo tempo que recrudesce o debate sobre a importância capital do design como fator transformador da sociedade e alicerce de um modelo sustentado de desenvolvimento, esta exposição adquire redobrado significado.
Uma última referência às inúmeras instituições nacionais, municipais e colecionadores que colaboraram connosco, cedendo as suas peças. Algumas, originais do MICP e, outras, suas contemporâneas dão a conhecer, em conjunto, muita da nossa herança industrial e etnográfica.