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Pórtico de Querubim Lapa da emblemática Loja Rampa adquirido pelo Município de Lisboa para integrar o acervo do MUDE

O MUDE - Museu do Design e da Moda, Coleção Francisco Capelo tem como uma das suas missões constituir um acervo representativo do design e da produção nacionais, de modo a contribuir para o estudo, o conhecimento, a conservação e a divulgação da cultura material em Portugal e dos seus autores. Deste modo, o MUDE tem vindo a adquirir peças de pioneiros do design que não estavam representados na coleção inicial do museu, para além de receber importantes espólios em doação. No âmbito desta política estratégica, informamos que a CML/MUDE adquiriu à Galeria Objectismo o pórtico desenhado pelo pintor, desenhador, gravador e ceramista Querubim Lapa (1925-2016), dado o seu elevado valor urbanístico, patrimonial, cultural e artístico. 
Este pórtico foi idealizado e projetado por Querubim Lapa para a emblemática Loja Rampa (1956) do arquiteto Francisco da Conceição Silva (1922-1982). A Loja Rampa, era um espaço comercial situado perto do Chiado, de vestuário, acessórios e objetos decorativos. Conceição Silva, autor, entre outros projetos, do Hotel do Mar (Sesimbra, 1958-1964), do Edifício Castil (1968-1971, Lisboa), do Hotel da Balaia (1966-1972) ou da Urbanização da península de Tróia (1970-1974), desenhou o projeto de arquitetura, o design de interiores e o mobiliário desta loja.
A construção da Loja Rampa esteve a cargo do engenheiro Diamantino Tojal e contou com a colaboração de vários artistas, entre os quais, Sá Nogueira, Almada Negreiros e Júlio Pomar, para além de Querubim Lapa. Demolida durante os anos 1980, esta Loja é considerada pela historiografia da arquitetura moderna como um dos melhores exemplos da afirmação de Lisboa cosmopolita e da arquitetura pensada para a função comercial. 
Este é um dos projetos mais representativos do entendimento do espaço de Conceição Silva, da qualidade do seu desenho e da forma como entendia a arquitetura como obra total, desenvolvendo a prática disciplinar do design de equipamento e de interiores. Ao longo da sua vida, Querubim Lapa explorou inúmeras técnicas artísticas, como a escultura, a gravura, o esmalte, a tapeçaria, o desenho e, em especial, a pintura, dedicando-se à cerâmica a partir de 1954, ano em que se estabeleceu na Fábrica Viúva Lamego com ateliê próprio, assumindo um importante papel no contexto das artes decorativas. Este pórtico, produzido na Fábrica Viúva Lamego, é representativo do saber de uma das mais antigas fábricas de cerâmica em Portugal que sempre respeitou as metodologias e os processos tradicionais dos azulejos portugueses, desenvolvendo, em paralelo, um processo de modernização dos seus temas e motivos através da colaboração com muitos artistas nacionais e internacionais. 
Este pórtico é exemplar da imagética de Querubim e da sua arte como ceramista. É de destacar a gramática decorativa utilizada, o cromatismo e a textura dos azulejos, mas também a associação entre uma composição figurativa, onde predomina o azul, o verde e o branco, e um jogo geométrico de linhas e cores, representativo do seu trabalho abstracionista. Para além dos característicos pássaros, dos elementos vegetalistas, dos animais e de duas figuras que desempenham o papel das tradicionais “figuras de convite”, identifica-se um chapéu e um sapato que assinalam o carácter comercial da Loja Rampa. 
Na fachada integralmente em vidro, a moldura da entrada em azulejo ganhava um redobrado valor e importância pelo seu entendimento arquitectónico. Por outras palavras, o azulejo era aplicado para além do seu uso convencional enquanto revestimento de parede. 
O pórtico de Querubim Lapa para a Loja Rampa passa a integrar o acervo do MUDE, estando prevista a sua instalação em uso no edifício do museu, após a conclusão das obras de requalificação em curso.